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Diário de um estudante de veterinária #3

A gente sempre tem que ouvir das pessoas que “Se veterinário amasse mesmo os animais, não cobraria a consulta” e esse é sempre um grande problema, pois quem tem esse pensamento raramente se convence que nós temos sim esse lado de compaixão pelos animais, mas também temos o lado humano, em que o mundo real cobra de nós contas para pagar, material utilizado no trabalho, o investimento na formação e etc.. Infelizmente, ser Veterinário não é só tomar lambida de filhotes felizes, mas também assumir muitas responsabilidades. Na minha opinião, jogar a culpa no Veterinário pelo preço do procedimento é muito fácil, e é uma ótima saída para quem não quer se esforçar para salvar uma vida ou dar melhor qualidade de vida a um animal. Pra mim, o correto seria “Se proprietário amasse mesmo seu animal, faria tudo que pode para conseguir pagar a consulta”.

Isso ficou bem claro pra mim quando, em um dos meus estágios, atendi um cãozinho de uma família bem humilde. O estado do animal era bastante delicado, pois havia brigado com outro cão na rua e estava ferido, tendo inclusive rompimento de parede abdominal e exposição de víscera. Evidentemente, a cirurgia era de emergência, e o proprietário chegou a dizer na secretaria do HoVet que só teria dinheiro para pagar alguns dias depois.

É claro que é uma situação complicada, pois a vida do animal depende de ações rápidas e o procedimento cirúrgico tem seu custo, mesmo que por toda a boa vontade do mundo por parte do Veterinário não se cobrasse a “mão-de-obra”, ainda assim teria o custo da anestesia, dos fios, da medicação peri-operatória e outros materiais e não cobrar esse tipo de coisa seria prejuízo razoável, ou seja, mais uma vez, voltamos ao mundo real, aquele em que o Médico Veterinário tem uma casa pra sustentar e contas para pagar. Mas aí, de dentro do consultório, eu pude ouvir o proprietário falando ao telefone, pedindo dinheiro emprestado para que pudesse tratar seu animal. Eu sei que muita gente pode falar que não é mais que a obrigação da pessoa dar suporte ao animal, já que assumiu a responsabilidade de criar, e isso é bem verdade, mas é verdade também que sabemos que não é sempre assim que acontece na nossa rotina.

Acredito que todo Veterinário, pelo menos uma vez em sua vida profissional, já tenha passado por uma situação em que um proprietário se recusa a pagar por alegar não ter condições e abandona o animal à sua própria sorte. Não é verdade? Muitas vezes a pessoa acha que por não ter condição de arcar com o tratamento, a responsabilidade de o fazê-lo de graça passa a ser nossa, dos Veterinários. E não é assim, quem realmente quer que seu animal fique bem busca todas as formas possíveis para ajudá-lo.

Pode parecer bobeira pra muita gente, mas, de alguma forma, ver aquela atitude daquela família humilde realmente se esforçando para dar assistência ao animal me lembrou que nem todos os proprietários são iguais. Como já disse acima, para pessoas de má fé, é uma ótima saída culpar o Veterinário pelo custo do procedimento ao invés de buscar outras soluções para o problema. E no final de tudo, mais motivador ainda foi ver o olhar de satisfação dos proprietários com o trabalho feito por nós e sua alegria vendo o animal já num estado bem melhor após a cirurgia. Ganhei meu dia.

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Médico Veterinário, residente de anestesiologia de animais de companhia, apaixonado por animais, futebol e música.