Artigos, Opinião

A indústria da carne é “vilã” ou “mocinha”?

Publicação desse tipo sempre gera polêmica, porém, antes de mais nada eu “retiro as luvas de box e saio do ringue” pois essa publicação não é de alguém que está convicto em arrumar uma boa briga, convertendo vegetarianos/veganos à religião dos amantes de churrasco, esse texto talvez nem esteja sendo redigido à você. Absolutamente não! Meu intuito aqui é outro. Todavia, eu espero alcançar aqueles falsos moralistas que condenam o consumo de carne e que muitas vezes utilizam bolsa de couro, mascam chicletes, usam creme rejuvenescedor, alimentam seu cachorrinho com ração, etc., todos obtidos de fonte animal

Já ouviram falar da ecologia rasa e profunda? Tenho notado as pessoas se agarrarem com força numa ecologia rasa e dizerem com orgulho que são socialmente, ambientalmente e (…mente, etc.) corretas. Por exemplo, empresas de automóveis “preocupadas” com o impacto ambiental devido à queima de combustíveis fósseis têm lançado carros parcialmente movidos à energia elétrica, um modelo híbrido diria de passagem, mas que funciona em certa autonomia sem queimar combustível. Você acha que isso é ecologia rasa ou profunda?

Esse é um caso de ecologia rasa, pois elas estão tentando amenizar um problema mas estão se “esquecendo” de outros que, potencialmente, podem causar impacto no meio ambiente, como o pneu (derivado do petróleo). Se fôssemos aplicar a ecologia profunda a mudança, como o próprio nome diz, seria profunda. Em outras palavras, ir a pé para o trabalho já seria a aplicação dessa ecologia. Estamos preparados para isso? (Entenda mais sobre ecologia rasa e profunda)

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Economia verde (foto: Eco4U)

Quando consumimos produtos de origem animal é necessário entender como essa carne chega até os consumidores. Cada espécie tem particularidades quanto ao processo de abate, mas de uma forma geral elas seguem uma mesma linha. Os animais chegam ao abatedouro em caminhões, permanecem em uma área de descanso climatizada com ventilador, exaustor, sombreamento e são descarregados em currais bem estruturados com acesso à água, respeitando-se a densidade destes animais e realizando-se um manejo adequado sem estresse até o momento da insensibilização.

Uma vez abatido, a carne deste animal é conduzida até câmaras frias de armazenamento, para futuro embarque e distribuição. A todas estas medidas ante mortem damos o nome de abate humanitário ou bem estar animal, isto é, o animal não deve sentir medo, dor e estresse durante o procedimento. Podem existir falhas? É evidente que sim, mas se você acompanha minhas publicações sabe o que eu penso. Toda falha deve ser identificada e corrigida. Falta de treinamento? Vamos instruir! Funcionário excedendo-se sem razão? Vamos advertir. Empresa conivente às falhas? Vamos denunciar! E assim por diante.

Bovinos da raça Nelore.
Bovinos da raça Nelore (foto: Roberto Mattos)

Uma vez abatidos, estes animais geram resíduos ou também chamados de subprodutos que podem ser sangue, couro, penas, vísceras, chifres, cascos, crinas, cérebro, ossos e refiles de carne descartada. E o que fazer com tudo isso? Seria um grande impacto ambiental se não tivéssemos destino adequado para tantas toneladas de resíduo. A verdade é que todo resíduo líquido, isto é, a água usada dentro dos frigoríficos com elevada carga microbiana, é devidamente tratada em Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) antes de serem despejadas em rios e todo resíduo sólido é reutilizado. E como são reutilizados?

Nos bovinos o couro é destinado à fabricação de gelatina, cintos, jaquetas, bolsas; sangue para material de pesquisa laboratorial, farinha de sangue para ração, etc; cascos e chifres para botões de camisas e espuma anti-incêndio; cérebro para creme rejuvenescedor e remédios; gordura para chicletes, velas, amaciantes, fertilizantes, biodiesel; vísceras basicamente para farinhas de ração animal. Nas aves as penas, sangue e vísceras são utilizadas para fabricação de ração para pets e a gordura utilizada para fabricação de biodiesel.

Até em plantas frigoríficas que abatem equinos para exportação, utilizam os resíduos de forma semelhante a dos bovinos com destaque para crina destes animais que podem ser feitas brochas de pincéis. Na indústria da estrutiocultura (avestruz), além da carne consumida, subprodutos como o couro pode produzir botas, carteiras, cintos, bolsas e as penas (plumas) podem ser vendidas para as empresas carnavalescas.  Até mesmo alguns pacientes cardíacos (seres humanos) devem suas vidas às válvulas dos corações de porcos (leia mais aqui Hypescience).

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Curiosidades das partes bovinas usadas no cotidiano (foto: hypescience)

Percebe como criticar o consumo de carne vai além do que seus olhos podem ver? Não seja uma pessoa com acusações levianas. A indústria da carne pode não viver uma ecologia profunda, mas com sua ecologia rasa em ação, tem gerado empregos, sustentado o PIB brasileiro (agropecuária) e garantido o sustento de milhões de pessoas.

Continue vegetariano/vegano e não mude por pressão ou imposição de ninguém! Use seu livre arbítrio de forma plena e critique de forma construtiva a fim de evoluirmos nosso processo. Porém, é necessário que todos compreendemos a complexidade das coisas. Afinal, nem sempre todo o mundo conspira contra os nossos princípios, :).

 

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Médico veterinário com especialização em Ciência Avícola e atual mestrando em Ciência de Alimentos pela Universidade Estadual de Londrina, tem experiência em Inspeção e Tecnologia de Produtos de Origem Animal. Humberto é amante de viagens internacionais e da arte marcial israelense Krav Maga.